quinta-feira, 26 de março de 2020

Filha da puta de temperatura

Diário da Peste,
25 de março de 2020

Por vezes, no mundo terrível, pessoas abrem um pouco a porta de casa e cospem à passagem de estrangeiros.
Estrangeiro, numa certa língua eslava, dizem-me, significa mudo.
Aquele que não fala a minha língua, é mudo.
Aquele que não tem a minha história, é mudo.
“Vírus detectado nos esgotos na Holanda”.
“Sol sai à rua, mas chuva volta a cair esta quarta-feira”.
Há barcos que estão atracados à espera de autorização para despejar a carga humana.
A natureza deve estar a olhar estupefacta para os humanos.
Por que se estão a retirar?
Duas cadelas.
Jeri, diminutivo de Jeriquaquara, brasil.
7 anos. E Roma, pastora belga.
Um ano.
A minha cadela Roma está agitada.
Energia excessiva por metro quadrado.
“Sobe para 30 o número de médicos que morreram em Itália.”
Deixa; agora outra coisa.
Somos monges, sim, mas sem a crença.
Isolar-se por medo ou precaução não é o mesmo que isolar-se por fé.
Virilio falava da "destruição do ambiente pela velocidade".
Accioli em Itália, na zona Norte, está a correr em casa no mesmo sítio para não ficar louco.
Ficar no mesmo sítio, mas de forma rápida.
Destruir a própria casa pela velocidade.
Destruir a família pela velocidade.
Destruir a família pela lentidão.
Vejo uma corrida de Bolt.
Record de 100 metros, 9, 58 segundos.
“Sol sai à rua, mas chuva volta a cair esta quarta-feira”.
Imagino as pessoas a saírem de casa e a irem festejar com Bolt o record do mundo.
Estar o mínimo de tempo fora de casa.
Fazer o essencial e voltar.
Ser um velocista, mas no trajecto ir fazendo coisas com as mãos.
Comprar alimentos.
Conduzir o carro.
A velocidade da cabeça e a velocidade das mãos.
Ouvir rádio no carro e exigir um aumento de velocidade da fala.
Que na rádio começassem a falar com as rotações erradas.
Lembro-me de um vinil.
Uma história infantil do lobo mau e dos três porquinhos. Num disco.
Dizia que o lobo era mau, muito mau, todo mau.
Mas ninguém é mau, muito mau, todo mau.
"a catástrofe seria a presença simultânea de todas as coisas", disse Sloterdijk, numa entrevista antiga.
A catástrofe agora como a ausência de todas as coisas.
Notícias com dois dias.
Na Croácia um terramoto exige que as pessoas saiam à rua e um vírus exige que as pessoas fiquem em casa.
As pessoas saem à rua, mas permanecem com espaço entre si.
Estão baralhadas: saio, fico.
Roma abana a cauda, tem sede.
Jeri, pacata, consome energia a olhar para as coisas.
Pego num anjo de vinte centímetros de altura.
É feito de um material estranho.
Parece mole por dentro.
Vou buscar uma faca de cozinha.
Páro.
Deixo o anjo e a faca de cozinha lado a lado.
A ver se a faca torna mais bravo o anjo, a ver se o anjo amolece a faca.
Estou a olhar para os dois como se fossem dois amigos recentes.
Mas não são.
738 mortos em Espanha.
Em Itália, 683.
Portugal, Espanha, frança, Itália, Estados Unidos, Brasil, Irão, Coreia do Sul, Holanda, Bélgica.
A temperatura de um país é medida pelo número de mortos.
Uma temperatura negra, grotesca.
Filha da puta de temperatura.
Ouvir um número como se ouve uma resposta.
Mas ninguém fez nenhuma pergunta.
As lojas de hamburgers no Reino Unido estão a fechar.
Leio um livro sobre características dos animais.
Cada animal tem uma maluquice própria.
Há muito medo nos lares.
É como uma ameaça pública feita aos mais velhos.
O que sentirá quem tem mais de setenta anos, mais de oitenta anos?
A roupa tem de ser lavada pelo menos a setenta graus.
É preciso queimar o inimigo,
Gosto de um verso, mas esqueci-me dele.
Roma brinca com Jeri, as duas não percebem nada.
O meu anjo está boquiaberto.
Mas não foi por vontade própria.
Fui eu que lhe abri a boca à força.
Mas está espantado com tudo isto.
Mesmo os seres que vêm lá de cima não entendem muito bem o que está a acontecer cá em baixo.
O anjo está de boca aberta.
Gonçalo M. Tavares, Diário da Peste , por vezes no mundo terrível, no Jornal Expresso de dia 26 de março, 

sábado, 21 de março de 2020

Porque não suspendemos a poesia..

Quando partires
se partires
terei saudades
e quando ficares
se ficares
terei saudades
Terei
sempre saudades
e gosto assim.
Adília Lopes

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020


عاشقان بالاخره در جایی ملاقات نمی کنند. آنها در کنار هم هستند
Lovers don't finally meet somewhere. They're in each other all along
J. M. Rumi

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

E que tudo o que disse foi com silêncio...

Se eu desaparecer hoje
E falo mesmo do meu corpo aqui tão sentado
a escrever desde a ponta da língua
à légua mais distante da minha vida,
diz que compreendi.

Diz que sei que nada está onde é certo estar
Que o amor súbito é a escada para o entendimento
Diz que fui ar azul sobre campos de secura
estrada recta ao infinito,
um acidente ao longe
Que provei toda a sede quando engoli os homens
Que queimei alegremente no ácido das palavras
Que tombei em ricochete para que me vissem
e que, quando me viram, me ergui animal

Diz que me viste nua, sempre
Que corri por hospícios de olhos fechados
e a boca às avessas
Que vivi mais ao alto do que em mundo plano
e fui honesta na minha rente loucura

Diz que nunca esqueci a subida a um plátano
Que ninguém viveu no meu lugar, nem eu, no de ninguém
Que fui o halo frio que preenchi com esta pena
Pela minha ausência
E que tudo o que disse foi com silêncio

Diz que sei, sobretudo, que ardemos juntos como ventosas,
Que o teu corpo me serviu de andar às pernas asmáticas
Que te agradeço ter-te oferecido lírios
Que me reduziste o nojo da espécie
Diz que eu fui eu

Guarda-me este segredo que tenho largo por baixo dos cabelos:
- quanto em mim fui que não vivi
quanto em ti é que fui eu?

Mas não te preocupes, não desapareço hoje
Quando me conheceste já eu não existia
e tu sabes
que essas saudades que vais tendo
são as minhas.


Cláudia R. Sampaio

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

E, mesmo sem boca, posso chamar por ti

Tira-me a luz dos olhos - continuarei a ver-te
Tapa-me os ouvidos - continuarei a ouvir-te
E, mesmo sem pés, posso caminhar para ti
E, mesmo sem boca, posso chamar por ti.
Arranca-me os braços e tocar-te-ei
Com o meu coração como com uma mão...
Despedaça-me o coração - e o meu cérebro baterá
E, mesmo que faças do meu cérebro uma fogueira,
Continuarei a trazer-te no meu sangue


Livro de Horas de R.M. Rilke