segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020


عاشقان بالاخره در جایی ملاقات نمی کنند. آنها در کنار هم هستند
Lovers don't finally meet somewhere. They're in each other all along
J. M. Rumi

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

E que tudo o que disse foi com silêncio...

Se eu desaparecer hoje
E falo mesmo do meu corpo aqui tão sentado
a escrever desde a ponta da língua
à légua mais distante da minha vida,
diz que compreendi.

Diz que sei que nada está onde é certo estar
Que o amor súbito é a escada para o entendimento
Diz que fui ar azul sobre campos de secura
estrada recta ao infinito,
um acidente ao longe
Que provei toda a sede quando engoli os homens
Que queimei alegremente no ácido das palavras
Que tombei em ricochete para que me vissem
e que, quando me viram, me ergui animal

Diz que me viste nua, sempre
Que corri por hospícios de olhos fechados
e a boca às avessas
Que vivi mais ao alto do que em mundo plano
e fui honesta na minha rente loucura

Diz que nunca esqueci a subida a um plátano
Que ninguém viveu no meu lugar, nem eu, no de ninguém
Que fui o halo frio que preenchi com esta pena
Pela minha ausência
E que tudo o que disse foi com silêncio

Diz que sei, sobretudo, que ardemos juntos como ventosas,
Que o teu corpo me serviu de andar às pernas asmáticas
Que te agradeço ter-te oferecido lírios
Que me reduziste o nojo da espécie
Diz que eu fui eu

Guarda-me este segredo que tenho largo por baixo dos cabelos:
- quanto em mim fui que não vivi
quanto em ti é que fui eu?

Mas não te preocupes, não desapareço hoje
Quando me conheceste já eu não existia
e tu sabes
que essas saudades que vais tendo
são as minhas.


Cláudia R. Sampaio

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

E, mesmo sem boca, posso chamar por ti

Tira-me a luz dos olhos - continuarei a ver-te
Tapa-me os ouvidos - continuarei a ouvir-te
E, mesmo sem pés, posso caminhar para ti
E, mesmo sem boca, posso chamar por ti.
Arranca-me os braços e tocar-te-ei
Com o meu coração como com uma mão...
Despedaça-me o coração - e o meu cérebro baterá
E, mesmo que faças do meu cérebro uma fogueira,
Continuarei a trazer-te no meu sangue


Livro de Horas de R.M. Rilke

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Sobre a paciência e as pequenas coisas

É preciso permitir às coisas
seu próprio passo,
quieto, sem perturbações,
oriundo do mais profundo,
sem que sejam acossadas,
sem que sejam aceleradas por nada,
quando tudo é tornar-se — até
dar-se à luz…
Amadurecer como a árvore
que não apressa sua seiva
e aguarda,
sossegada, nas tempestades primaveris,
sem medo de que não chegue mais o verão.
Ele virá sim!
Mas virá apenas para os pacientes,
que aí estão como se a eternidade
estivesse à sua frente,
impávidos, quietos e largos…
É preciso ter paciência
com o inconcluso no peito.
É preciso tentar amar as próprias perguntas
como quartos fechados
e livros escritos numa língua muito estrangeira.
É preciso viver tudo.
Quando se vive as perguntas, vive-se também,
talvez, aos poucos,
sem que se perceba,
no romper de um dia desconhecido,
o começo das respostas.
De Rilke